O campo de reflexão e atuação em torno dos processos de restituição e repatriamento vem ocupando um lugar central e sensível na contemporaneidade, estimulando debates, gerando controvérsias de natureza legal, política, moral e epistemológica, proporcionando mobilizações coletivas em torno da devolução de objetos, artefatos, gravações e remanescentes humanos que lhes foram, em muitos casos, retirados de modo violento e sem consentimento. Além de relevante socialmente, na medida em que estimula os movimentos de reconhecimento político da diversidade cultural, esse tema tem mobilizado discussões acadêmicas, contribuindo assim para a produção de conhecimento científico em diversas áreas - antropologia, filosofia, direito, etnomusicologia, museologia, entre outras. Assim, a problemática da relação entre os que são detentores dos artefatos (museus, universidade, instituições científicas e pesquisadores) e as pessoas ou comunidades às quais tais objetos ou manifestações registradas pertencem gera desafios para pensar o contexto de sentido destes objetos e práticas culturais no momento de sua contextualização ou execução e os desdobramentos de sentido possíveis da restituição. É esta gama de questões e interfaces disciplinares relacionadas aos contextos de restituição que o Projeto pretende tratar de modo extensional, produzindo esta interação de restituição. O objetivo deste projeto de extensão é promover o processo de retorno/restituição e devolução de fragmentos da coleção fonográfica do folclorista, médico e pesquisador alagoano Théo Brandão (1907-1981) aos grupos, localidades nas quais as gravações foram originalmente realizadas. Por sua singularidade, complexidade e representatividade, o caso da coleção Théo Brandão (um dos mais relevantes esforços de documentação fonográfica das tradições musicais brasileiras, notadamente alagoanas) pode contribuir para a compreensão e problematização dos processos e debates contemporâneos sobre restituição e repatriamento de coleções etnográficas. Partindo da ideia do registro sonoro como tecnologia da memória (Samuels et ali 2010) e através de uma metodologia dialógica e colaborativa, elaborada conjuntamente com as pessoas, grupos e comunidades envolvidas, o projeto pretende acompanhar, documentar e descrever como as gravações de Théo Brandão serão ressocializadas (Lewys e Brabec 2023) e reativadas (Kummels e Cánepa 2023) em cada contexto selecionado. Para viabilizar tais objetivos, do conjunto de documentos sonoros que integram a Coleção Théo Brandão, selecionamos os fonogramas referentes à duas manifestações representativas da diversidade étnico-cultural alagoana: Xangôs e Torés. Em parceria com as comunidades detentoras dos saberes referentes a essas musicalidades, iremos organizar e realizar 07 (sete) encontros para escutarmos e conversarmos sobre as gravações selecionadas. A ideia é compartilharmos impressões sobre o conteúdo, a forma e os significados contemporâneos das sonoridades e musicalidades inscritas nas gravações que Théo Brandão realizou entre os anos de 1950 e 1980. Todos os eventos/ encontros que estamos propondo serão documentados em áudio e vídeo para posteriormente serem analisados e descritos, embasando futuras produções, reflexões e colaborações. A proposta visa reativar estes registros sonoros nas redes de conexão e cultivo dos sentidos presentes nas comunidades e lideranças de Xangô e Toré de Alagoas, revivendo sentidos, memórias e propondo oportunidade de desdobramentos através de um ato preparado de escuta. Além disso, o projeto de devolução, restituição e repatriamento das gravações etnográficas de Théo Brandão às comunidades originárias se inspira em iniciativas que procuram aproximar a universidade de segmentos sociais que historicamente vem sendo postos à margem desses (e de outros) espaços de saber / poder. Para reverter tal processo, nos inspiramos em uma perspectiva colaborativa e dialógica, incentivando o encontro dos saberes acadêmicos com os saberes, populares e afro-indígenas (Carvalho 2018). A intenção é contribuir para a construção de uma universidade mais inclusiva e plural, que possa incorporar outros saberes, conhecimentos e modos de aprendizado.
Discentes de ciências sociais, filosofia, história, música e áreas afins; servidores técnicos e bolsistas do Museu Theo Brandão
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