Sistemas nanoestruturados carregados com extratos hidroalcoólico e proteico da semente de açaí (Euterpe oleracea): desenvolvimento, caracterização e avaliação biológica
Euterpe oleracea; Compostos bioativos; Nanotecnologia; Liberação controlada.
O açaí (Euterpe oleracea Mart.), fruto nativo da região amazônica, tem ganhado destaque mundial por suas propriedades nutricionais e funcionais. No entanto, cerca de 85% do volume do fruto corresponde à semente, subproduto frequentemente descartado pela indústria, o que representa um passivo ambiental relevante. Estudos recentes apontam que essa fração contém compostos bioativos com potencial antioxidante, anti-inflamatório, antidiabético e antimicrobiano, sendo uma fonte promissora para aplicações em sistemas terapêuticos e tecnologias sustentáveis. Neste contexto, esta tese teve como objetivo principal o desenvolvimento e caracterização de sistemas de liberação controlada, sendo eles nanopartículas poliméricas e lipossomas, incorporando extratos hidroalcoólicos ou extratos proteicos da semente de açaí, com vistas ao aproveitamento integral desse recurso natural. A pesquisa foi estruturada em duas etapas experimentais. A primeira consistiu na extração, quantificação e caracterização dos compostos bioativos presentes no extrato hidroalcoólico de semente de açaí (EHSA), com destaque para fenóis totais, flavonoides, catequinas e procianidinas, além da avaliação da atividade antioxidante por métodos espectrofotométricos (DPPH, FRAP, ABTS, TBARS). O extrato hidroalcoólico apresentou elevada atividade antioxidante, sendo selecionado para formulação de nanopartículas poliméricas por meio de técnicas de emulsificação-evaporação e precipitação. As nanopartículas desenvolvidas, compostas por PCL e Eudragit ou PCL e Pluronic, foram caracterizadas quanto ao tamanho, potencial zeta, morfologia, eficiência de encapsulamento, estabilidade térmica e perfil de liberação dos compostos ativos. As nanopartículas poliméricas carregadas com extrato hidroalcoólico demonstraram significativa atividade antioxidante e inibição das enzimas α-amilase e α-glicosidase, indicando potencial uso como coadjuvante no controle glicêmico, além de atividade antibacteriana contra cepas Gram + (Staphylococcus aureus) e Gram – (Pseudomonas aeruginosa). Na segunda etapa, foi obtido e caracterizado um extrato proteico da semente de açaí (EPSA), rico em proteínas, peptídeos ou aminoácidos e aminas com potencial funcional, o qual foi incorporado em sistemas lipossomais autoemulsionáveis, aqui denominados de LEPSA. Esses sistemas foram analisados quanto às suas propriedades físico-químicas, estabilidade, eficiência de encapsulamento e atividade biológica. A caracterização incluiu espectros de FTIR, AFM, análise por DLS e testes de viabilidade celular, atividade antioxidante e atividade leishmanicida. Os resultados obtidos evidenciaram que tanto os sistemas poliméricos quanto os lipossomas apresentaram excelente desempenho em termos de estabilidade, encapsulamento e bioatividade. Os lipossomas contendo o extrato proteico (EPSA) mostraram-se promissores frente à atividade antioxidante e apresentaram efeito leishmanicida in vitro, com viabilidade celular reduzida de forma dose-dependente. Dessa forma, a tese contribui para a valorização de resíduos agroindustriais usando nanotecnologia e encapsulamento de compostos bioativos, oferecendo alternativas sustentáveis e eficientes para aplicações nas áreas farmacêutica, cosmética e nutracêutica. Na área ambiental, mitiga impactos ambientais associados ao descarte da semente do açaí. A pesquisa também fortalece a abordagem da economia circular, promovendo o uso racional e integral de recursos naturais com alto valor funcional.