CORPOS, MEMÓRIAS E TRAMAS:
METAMORFOSES DO HABITAR EM PORTO DE PEDRAS
Porto de Pedras; Paisagem; Metamorfose, Família e territorialidade; Turismo.
“Se abríssemos as pessoas, encontraríamos paisagens” – afirma Agnès Varda. E, nesse gesto de abertura, que neste trabalho é um
retorno, há um desvelar que não é apenas espacial, mas também corpóreo. Esta pesquisa se constrói a partir de uma imersão na cidade
de Porto de Pedras e na região em que se insere, a Rota Ecológica dos Milagres, em Alagoas, articulando corpo, memória e paisagem
como dimensões indissociáveis do conhecimento. Ao assumir o corpo, salientando sua dimensão sensível, o processo investigativo
desloca-se de uma leitura distanciada para uma experiência implicada, na qual perceber, habitar e narrar tornam-se gestos simultâneos.
A investigação propõe, principalmente, se aproximar do território por uma via experimental e que se nutre de laços de família, assim como
se mostram as relações sociais em inúmeras pequenas cidades. A investigação percorre diferentes âmbitos temporais, evidenciando
como o território se constitui a partir de coexistências que envolvem ecos da presença dos povos originários, os processos coloniais, a
implantação de missões religiosas, o quilombo e os engenhos, bem como as dinâmicas contemporâneas associadas ao turismo e à
mercantilização dos modos de vida e da própria terra. Nesse sentido, a cidade litorânea revela-se como campo fértil de aprendizagem,
onde práticas cotidianas, ritmos mais lentos e relações de proximidade oferecem outras possibilidades de pensar o habitar, tensionando,
além disso, os modos hegemônicos de produção de conhecimento sobre o ambiente urbano, frequentemente ancorados em escalas
distanciadas e generalizantes. Neste estudo a cidade é apreendida em dimensões diversas e misturadas, expondo suas formações
territoriais e as relações que a constituíram e a constituem; pela perspectiva familiar, na qual memória e familiaridade delineiam outros
caminhos; pelas imersões e vivências de campo por meio do caminhar, em que o corpo se torna meio e medida da experiência; e, por
fim, pela vida cíclica e suas metamorfoses, que reconhecem corpos e paisagens como fluxos contínuos, onde começos e recomeços se
entrelaçam. Assim, a dissertação se inscreve no próprio movimento da paisagem, devolvendo-se a ela como uma parte de seu devir.