Estética, ideologia e classes sociais na literatura moderna: estudos comparados sobre Graciliano Ramos, Lêdo Ivo e o Modernismo brasileiro
Modernismo brasileiro, Literatura comparada, Graciliano Ramos, Lêdo Ivo
Este trabalho propõe um estudo comparado entre Angústia (1936), de Graciliano Ramos, e Ninho de Cobras (1973), de Lêdo Ivo, com o objetivo de compreender como tais romances figuram, sob perspectivas estéticas e ideológicas específicas, as classes pequeno-burguesa e burguesa na modernidade brasileira. A análise centra-se em quatro personagens: Luís da Silva e Julião Tavares, no romance de Ramos; Alexandre Viana e o professor Serafim Gonçalves, na obra de Ivo. A hipótese da qual se baseia a dissertação é que essas personagens, ainda que inseridas em um mesmo horizonte histórico-social — a Maceió das décadas de 1930 e 1940 —, produzem formas distintas de subjetividade, cujas diferenças não podem ser explicadas por um único eixo interpretativo.
A dissertação estrutura-se em duas partes complementares. Na primeira, discute-se a provocação de Mário de Andrade acerca da recorrência da figura do “fracassado” nos romances de 1930, articulando-a à teoria do romance em Bakhtin e Carpeaux, bem como à filosofia da linguagem de Wittgenstein. Defende-se que a prosa, enquanto forma privilegiada da modernidade, não apenas organiza a narrativa, mas constitui o próprio mundo representado.
Na segunda parte, é desenvolvida uma análise das personagens a partir de um referencial teórico que articula ontologia marxiana, filosofia da linguagem e teoria dos afetos. A partir dessa articulação, propõ-se o conceito de “dialética da infelicidade”, entendido como o processo pelo qual condições materiais marcadas pela precariedade e pela exploração produzem subjetividades atravessadas pelo desamparo, cujos afetos impotentes tendem a reproduzir, no plano das relações sociais, as próprias condições que os engendram. Argumento que Luís da Silva é a figura paradigmática desse fenômeno, enquanto as demais personagens — por razões distintas — operam fora dele: Julião Tavares, pela estabilidade material e simbólica; Serafim Gonçalves, pelo pragmatismo arrivista; e Alexandre Viana, por um processo de estranhamento que o coloca aquém da própria dialética da infelicidade.
Por fim, sustenta-se que a articulação entre forma estética e posição ideológica, observável tanto na construção da prosa quanto na configuração das personagens, permite compreender a literatura como espaço privilegiado de elaboração das contradições da modernidade, sobretudo no que diz respeito à experiência da pequena-burguesia brasileira.