QUANDO OS SINAIS/PALAVRAS NA VIDA NÃO SÃO POÉTICOS(AS): CIRCULAÇÃO DE DISCURSOS LGBTQIAPN+FÓBICOS EM LIBRAS
Língua; Libras; Sinais; Discursos LGBTQIAPN+fóbicos; Apoderamento
A presente tese tem como objetivo identificar os sinais utilizados na Língua Brasileira de Sinais (Libras) para designar membros da comunidade LGBTQIAPN+ e analisar as relações de sentidos reiterados e produzidos por meio desses itens lexicais. A relevância desta investigação reside na lacuna de pesquisas que abordem a Libras como locus de produção e circulação de discursos, sobretudo em contextos que evidenciem os atravessamentos de gênero e sexualidade. Observa-se que grande parte dos estudos sobre a língua de sinais permanece centrada na descrição fono-morfossintática, negligenciando as implicações socioculturais e discursivas, especialmente no que tange às dinâmicas de poder e opressão entre seus sinalizantes e à capilarização desses valores no tecido social. Ancorada na Linguística Aplicada e na Análise Dialógica do Discurso, esta pesquisa parte de uma concepção de língua(gem) como prática social constitutiva das relações entre os sujeitos, capaz de (re)orientar e (re)modelar as interações nas mais multifacetadas esferas da atividade humana. O trabalho dialoga, ainda, com os Estudos de Gênero, compreendendo que os sentidos produzidos pela linguagem operam como mecanismos de reprodução e subversão de normas sociais, marcados pela colonialidade do poder e pela cis-heteronormatividade. O percurso metodológico estruturou-se em duas etapas: (1) identificação de sinais em bases de dados (virtuais e físicas) e entrevistas com membros da comunidade surda de Maceió-AL; e (2) realização de entrevistas narrativas com cinco participantes surdos que se identificam como LGBTQIAPN+. Os resultados apontam que, majoritariamente, os sinais analisados perpetuam discursos LGBTQIAPN+fóbicos e reforçam estereótipos opressivos: sinais para homens cisgêneros gays destacam características associadas ao feminino (inversão); sinais para lésbicas aludem a posições sexuais vulgarizadas; e sinais para pessoas trans mobilizam representações caricatas e subalternas. Diante dessa ausência de representatividade visual ética, identificou-se, como tática de ruptura, a recusa ativa da iconicidade estigmatizante em favor de empréstimos das línguas orais (inicialização). Esse recurso à estrutura da língua portuguesa funciona como uma estratégia de distanciamento axiológico, na qual, ao mitigarem a imagem visual do corpo caricato, os sujeitos assumem a agência de planejadores linguísticos para legitimar suas existências. Quanto às entrevistas narrativas, organizadas nos eixos da horizontalidade (dimensão coletiva) e verticalidade (dimensão individual), observou-se uma aguçada consciência metalinguística que resulta na alternância de códigos conforme o interlocutor, além de uma atuação política em microcontextos para combater a solitude epistêmica. Por fim, propõe-se o conceito de Apoderamento como via de re-existência: um fenômeno no qual a comunidade LGBTQIAPN+ se apropria de termos pejorativos, ressignificando-os ou criando neologismos (planejamento linguístico comunitário) para afirmar suas identidades. Conclui-se pela necessidade urgente de desestabilizar os valores opressores estabilizados nesses sinais, mobilizando a linguagem não apenas para expor a cristalização do preconceito, mas como instrumento ético e político voltado à valorização das existências em suas múltiplas expressões de alteridade.