DISPARIDADES RACIAIS EM SAÚDE NA AGENDA CIENTÍFICA BRASILEIRA: UMA ANÁLISE BIBLIOMÉTRICA DE REUNIÕES DE SOCIEDADES CIENTÍFICAS
Disparidade racial de saúde, racismo, pesquisa científica, desigualdade social.
Introdução: A herança histórica da escravidão no Brasil perpetuou formas estruturais de racismo que atravessaram gerações, contribuindo para as desigualdades sistêmicas persistentes na saúde da população negra. A escassez de literatura científica que relacione o racismo estrutural aos determinantes sociais da saúde, especialmente no âmbito da produção científica, dificulta mensurar o impacto da discriminação racial nesse campo. A análise bibliométrica de trabalhos apresentados em eventos científicos permite avaliar o grau de atenção dedicada à saúde da população negra. Objetivo: Desenvolver indicadores da produção científica das principais sociedades científicas do Brasil sobre as disparidades raciais na saúde da população negra. Métodos: Foi realizada análise bibliométrica de resumos extraídos dos anais científicos disponíveis online de eventos promovidos por sociedades científicas brasileiras entre 2013 e 2025. A seleção dos trabalhos utilizou descritores em português e em inglês relacionados às disparidades raciais em saúde. Os resumos selecionados tiveram seu contexto avaliado por dois avaliadores independentes, com triagem manual e apoio de ferramentas de inteligência artificial. Resultados: Foram analisados 38.312 resumos de 47 congressos científicos. Apenas 1,12% abordaram a saúde da população negra. Foram observadas baixa produção temática, concentração regional dos eventos e elevada concordância entre os avaliadores humanos (Kappa = 0,93). A inteligência artificial apresentou baixa sensibilidade na identificação de trabalhos associados às disparidades raciais. Conclusão: Os resultados evidenciam a persistente invisibilidade das disparidades raciais em saúde na produção científica nacional, o que se reflete na baixa frequência de publicações dedicadas ao tema. Essa lacuna reforça a atuação do racismo estrutural, que contribui para a negligência de estratégias voltadas à superação das desigualdades que afetam a saúde da população negra no Brasil.