PERCEPÇÕES DE RISCO E ESTRATÉGIAS ADAPTATIVAS ÀS MUDANÇAS AMBIENTAIS NA CADEIA DE VALOR DA AROEIRA (Schinus terebinthifolia Raddi.) NO BAIXO SÃO FRANCISCO, EM ALAGOAS
Mudanças Ambientais. Extravismo. Governança territorial
As mudanças ambientais têm alterado de forma crescente as condições ecológicas, territoriais e produtivas das cadeias de valor da sociobiodiversidade. Em contextos nos quais a subsistência depende diretamente do uso de recursos naturais, essas mudanças extrapolam a dimensão biofísica, reconfigurando os regimes de acesso aos recursos, os arranjos de governança territorial e as estratégias adaptativas desenvolvidas pelas populações locais. Nesse contexto, esta tese analisa como as mudanças ambientais influenciam as percepções de risco, as estratégias adaptativas e as dinâmicas territoriais associadas à cadeia de valor extrativista da aroeira (Schinus terebinthifolia Raddi.) na região da foz do rio São Francisco, Nordeste do Brasil. A pesquisa foi realizada no município de Piaçabuçu, envolvendo 53 extrativistas distribuídos em 14 comunidades. Foram utilizadas entrevistas semiestruturadas, escalas de percepção de risco e análises espaciais das áreas de coleta, articulando informações sobre situação fundiária, formas de acesso aos recursos, inserção em unidades de conservação e práticas de manejo. Os resultados demonstram que as percepções de risco e as estratégias adaptativas são influenciadas por fatores socioeconômicos, produtivos e territoriais. Extrativistas mais experientes e mais dependentes da atividade tendem a atribuir maior gravidade aos riscos associados às mudanças ambientais. Entre os principais fatores de preocupação destacam-se as chuvas excessivas, o aumento da temperatura, a redução da disponibilidade de frutos, a perda de áreas para outros usos da terra e a insegurança quanto ao acesso às áreas de coleta. As estratégias adaptativas identificadas mostraram-se limitadas e fortemente condicionadas por restrições de acesso à informação, à assistência técnica e ao apoio institucional. A tese evidencia ainda que a cadeia extrativista da aroeira se organiza em territórios marcados por heterogeneidade ambiental, fragmentação fundiária e regimes de acesso predominantemente informais. As áreas de coleta distribuem-se entre propriedades privadas, assentamentos e unidades de conservação de uso sustentável, sendo o acesso frequentemente mediado por permissões verbais, relações de confiança e acordos informais. Nesse contexto, a governança territorial condiciona a forma como os riscos são percebidos, interpretados e enfrentados pelos extrativistas. Conclui-se que as mudanças ambientais e as dinâmicas territoriais atuam de forma articulada sobre as cadeias de valor da sociobiodiversidade. Assim, políticas públicas e iniciativas de conservação precisam reconhecer a centralidade dos territórios, dos regimes de acesso e dos conhecimentos locais, incorporando os extrativistas como sujeitos fundamentais na gestão da biodiversidade e na construção de estratégias de adaptação mais justas e efetivas.