MULHER, CIÊNCIA E ÓDIO: DESINFORMAÇÃO CIENTÍFICA E VIOLÊNCIA MISÓGINA NA COMUNIDADE INCEL
Misoginia; Desinformação científica; Incels; Altmetria.
A crescente circulação de conteúdos científicos em ambientes digitais tem ampliado as possibilidades de acesso à informação, mas também favorecido processos de apropriação e ressignificação de evidências científicas para sustentar discursos ideológicos e formas de desinformação. A pesquisa analisa como comunidades incel mobilizam estudos científicos para legitimar narrativas misóginas em ambientes digitais, tendo como objetivo compreender de que maneira pesquisas científicas são apropriadas e reinterpretadas para sustentar discursos de hostilidade contra mulheres. Como objeto de investigação, adota-se a Scientific Blackpill Wiki, repositório colaborativo que reúne conceitos, argumentos e referências científicas frequentemente utilizados por integrantes da cultura incel. Metodologicamente, a pesquisa combina análise documental da wiki com análise altmétrica do estudo de Carter (2014) e Seffrin (2017), amplamente mobilizado por essas comunidades para sustentar a narrativa de que mulheres seriam atraídas por homens associados à chamada tríade negra. A análise busca compreender os processos de circulação, visibilidade e apropriação pública dessa pesquisa em ambientes digitais. Os resultados indicam que a mobilização seletiva de evidências científicas contribui para a construção de uma aparência de credibilidade e consenso, favorecendo processos de desinformação científica e legitimação da misoginia. Conclui-se que a apropriação de pesquisas científicas por comunidades digitais constitui um importante mecanismo de produção de autoridade discursiva, reforçando a necessidade de ampliar os estudos sobre circulação da informação científica, desinformação e violência simbólica em ambientes digitais.