PRÁTICAS ANTIRRACISTAS NO ENSINO DE CIÊNCIAS: DISCURSOS DOCENTES EM CONTEXTO QUILOMBOLA
Ensino de Ciências. Educação Escolar Quilombola. Antirracismo. Ciência-Confluência. Análise Textual Discursiva.
Esta tese investiga os desafios e as potencialidades de um Ensino de Ciências não-hegemônico em contextos quilombolas, tendo como lócus de pesquisa uma escola situada no município de Taquarana/AL, que atende estudantes das comunidades de Mameluco, Sítio Novo, Poços do Lunga e Passagem do Vigário. Objetivou-se, em caráter amplo, analisar as práticas pedagógicas e os discursos de docentes que lecionam Ciências para estudantes quilombolas, a fim de compreender como essas ações articulam os saberes do território ao currículo escolar no enfrentamento ao racismo estrutural e em observância a implementação da Lei 10.639/03. Fundamentada no Pensamento Amefricano de Lélia Gonzalez e na Pedagogia de Paulo Freire, a pesquisa ancora-se em intelectuais que analisam as singularidades da formação social brasileira e o racismo em suas implicações nas subjetividades e no cotidiano escolar, como Nascimento (2021), Gonzalez (2020) e Fanon (2020). No campo específico do Ensino de Ciências, dialogamos com o referencial de Krasilchik (1987) e Marandino (2013), articulando-os à educação antirracista proposta por Pinheiro (2023), Verrangia (2010) e Gomes (2017). O percurso metodológico ancorou-se na Análise Textual Discursiva (ATD), operada a partir de entrevistas com o corpo docente e da análise iconográfica de produções materiais e visuais do "Projeto Afro" desenvolvido na instituição. Os resultados revelam a persistência de três fenômenos críticos: a Pedagogia da Denegação, que reconhece a cultura quilombola de forma sazonal e folclórica, mas silencia a dimensão política do corpo negro; o Epistemicídio Geográfico, que privilegia referências distantes em detrimento da ancestralidade viva do território imediato; e a existência de uma Ciência Submersa, onde conhecimentos ancestrais ligados ao manejo da argila, à botânica e à segurança alimentar são desconsiderados como racionalidades legítimas. A análise iconográfica denunciou a fragmentação do saber e a folclorização da África, evidenciando o que nomeio como a Neurose da Influência. Conclui-se que a superação desses embates exige o Aquilombamento do Ensino de Ciências, proposta que reivindica o território quilombola como fundamento curricular e laboratório de pluralismo epistêmico. A tese defende uma Ciência-Confluência, capaz de articular o conhecimento universal à soberania intelectual quilombola, transformando o Ensino de Ciências em um instrumento de reparação histórica, afirmação identitária e justiça cognitiva no chão da escola quilombola alagoana.