Desvelando a Branquitude na Academia: uma Etnografia das dinâmicas do Racismo no Ensino Superior em Portugal e no Brasil
Branquitude; Ensino Superior; Racismo Institucional; Prosperidade Intelectual Negra.
Este estudo analisa as dinâmicas institucionais que produzem, naturalizam ou tensionam o racismo no ensino superior brasileiro e português, a partir do conceito de branquitude e de sua interface com a herança colonial. A pesquisa adota uma perspectiva comparada e transatlântica, tendo como participantes interlocutores vinculados a programas de doutoramento em universidades do Brasil e de Portugal. Metodologicamente, a investigação fundamenta-se em uma abordagem qualitativa, ancorada na etnografia e situada no campo da Antropologia da Educação. A partir de suas narrativas, a investigação busca compreender e interpretar aproximações, especificidades e nuances das questões raciais, bem como suas manifestações no cotidiano acadêmico dos contextos investigados. Os resultados revelam a permanência de estruturas curriculares marcadas pelo eurocentrismo, as quais contribuem para a invisibilização e a deslegitimação de epistemologias historicamente marginalizadas. Embora tenham sido identificadas iniciativas e discursos voltados ao enfrentamento do racismo, persistem lacunas institucionais que dificultam a consolidação de práticas efetivamente antirracistas. A análise também evidencia a relevância do fortalecimento da presença negra no ensino superior, demonstrando que a democratização desses espaços requer políticas que contemplem não apenas o acesso, mas também a permanência, a conclusão dos cursos e a continuidade da formação em nível de pós-graduação. Tais elementos mostram-se fundamentais para a promoção da equidade racial e para a transformação das estruturas institucionais que sustentam as desigualdades raciais, incluindo os privilégios historicamente associados à branquitude e sua atuação na reprodução e naturalização das hierarquias raciais no espaço acadêmico. Os dados também ressaltam a importância da democracia como condição fundamental para a promoção de debates críticos sobre racismo e para a implementação de políticas de equidade no ensino superior. Nesse sentido, o crescimento de movimentos e discursos de extrema direita tem tensionado esses processos tanto no Brasil quanto em Portugal, seja por meio da deslegitimação da ciência e do enfraquecimento das universidades públicas, seja pelo fortalecimento de discursos racistas e xenófobos dirigidos às populações imigrantes. Tais dinâmicas evidenciam que o enfrentamento dessas disparidades é indissociável da defesa da democracia, da produção científica e da universidade como espaço de pluralidade, diversidade e justiça social. Por fim, a pesquisa propõe o conceito de prosperidade intelectual negra como contribuição teórica para a compreensão das formas contemporâneas de resistência negra no ensino superior. O conceito expressa a capacidade de sujeitos negros de produzir, interpretar e transformar o conhecimento científico a partir de suas experiências, memórias, subjetividades e projetos de futuro, em contextos historicamente marcados pelo racismo e pela negação da legitimidade de sua produção intelectual. A prosperidade intelectual negra evidencia que a produção do conhecimento não pode ser reduzida a processos meramente técnicos ou descontextualizados da realidade social, devendo ser compreendida como um campo de disputas, reconhecimento e afirmação de múltiplas formas de existência e produção epistemológica.