SUSTENTABILIDADE, BIOECONOMIA E SAÚDE: UTILIZAÇÃO DE RESÍDUOS SÓLIDOS ATÓXICOS DA FRUTICULTURA DO NORDESTE BRASILEIRO COMO AGENTES TERAPÊUTICOS NO DIABETES MELLITUS GESTACIONAL
Diabetes mellitus gestacional, Passiflora edulis, extração, estilbenos, sementes, zebrafish, atividade antidiabética, antioxidantes
O diabetes mellitus gestacional (DMG) afeta de 3 a 15% das gestações, configurando-se como o distúrbio metabólico mais comum do período gravídico. Resulta de falhas adaptativas às alterações hormonais e placentárias, que culminam em resistência à insulina, intensificada por mediadores pró-oxidantes e pró-inflamatórios. Esses fatores reforçam a necessidade de terapêuticas alternativas capazes de combinar propriedades antiglicantes, antioxidantes e anti-inflamatórias. Nesse cenário, produtos naturais têm despertado crescente interesse devido à riqueza em compostos bioativos, frequentemente presentes em resíduos sólidos como sementes, cascas e folhas. No Brasil, a Passiflora edulis destaca-se por sua ampla distribuição geográfica e safra praticamente ininterrupta, o que a torna um recurso estratégico para aplicações farmacêuticas, cosméticas e alimentícias. Entre seus resíduos, as sementes apresentam expressivo potencial nutritivo e terapêutico, que pode ser otimizado conforme o método de extração: a fração oleosa concentra ácidos graxos mono e poli-insaturados, enquanto a fração etanólica é fonte de estilbenos, como piceatannol, e flavonoides, como naringenina. Diante disso, o objetivo central desta tese foi investigar o potencial terapêutico das sementes de P. edulis, por meio de análises químicas, avaliações biológicas in vitro e in vivo, e revisão crítica da literatura, visando elucidar sua aplicabilidade sustentável na prevenção e no manejo do DMG. A tese foi estruturada em quatro capítulos, integrando revisões sistemáticas e estudos experimentais. O capítulo 1 abordou os principais mecanismos fisiopatológicos do DMG, destacando a interação entre inflamação, estresse nitroxidativo e microbiota intestinal, além de identificar terapias alternativas baseadas em produtos naturais com potencial antioxidante, anti-inflamatório e antiglicante em ensaios pré-clínicos. O capítulo 2 concentrou-se nos E-estilbenos, em especial o piceatannol, ressaltando a ativação da via Nrf2, eixo central da resposta antioxidante e anti-inflamatória, e evidenciando a modulação de múltiplas vias biológicas por esses compostos. O capítulo 3 investigou a função bioativa do óleo de P. edulis obtido por três métodos de extração: Soxhlet, fluido supercrítico e prensa fria. O óleo extraído por fluido supercrítico destacou-se pelo teor de ácidos graxos, especialmente ácido linoleico, e pela elevada atividade antioxidante frente aos radicais DPPH• e O₂•⁻. Adicionalmente, apresentou capacidade de inibir a enzima α-glicosidase e manteve viabilidade celular superior a 90%, demonstrando segurança para células placentárias. No capítulo 4, comparou-se o extrato etanólico da semente de P. edulis com o piceatannol isolado, em ensaios in vitro (modelos celulares humanos e não humanos) e in vivo (zebrafish). O piceatannol revelou maior potência antioxidante frente ao HOCl e aos radicais DPPH• e O₂•⁻, além de inibição das enzimas α-amilase e α-glucosidase, e ativação da glucokinase. Ambos os tratamentos atenuaram o burst oxidativo em neutrófilos humanos e, em embriões de peixe-zebra, o extrato etanólico demonstrou menor embriotoxicidade. Sob hiperglicemia pulsátil e contínua, ambos reduziram a glicemia e as espécies reativas de oxigênio totais, além de modular distintas vias antioxidantes: o extrato aumentou a expressão de Nrf2, SOD1, SOD2 e CAT, enquanto o piceatannol induziu Nrf2, GPx1a e CAT, evidenciando respostas complementares. Em conjunto, os achados desta tese fornecem evidências de que as sementes de P. edulis, tanto na forma de óleo quanto em extrato etanólico, possuem potencial terapêutico multifuncional e seguro, atuando sobre hiperglicemia, estresse oxidativo e processos inflamatórios. Além de fortalecer o papel dos produtos naturais como alternativas promissoras para o manejo do DMG, os resultados ressaltam a valorização sustentável de subprodutos agroindustriais e a integração entre saúde, inovação e sustentabilidade, alinhando bioatividade funcional à bioeconomia.