Escrita de si e formação do eu-docente: A possibilidade formativa das narrativas autobiográficas na licenciatura de pedagogia
Formação Docente; Narrativas Reflexivas; Identidade Docente; Pesquisa Narrativa; Autoformação.
Este trabalho investiga a escrita de si como dispositivo epistemológico e formativo na constituição da identidade docente, situando-se na interseção entre a virada narrativa da pesquisa educacional e a crise da racionalidade técnica. O estudo analisa o processo de (re)construção identitária de licenciandos do curso de Pedagogia da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Campus Arapiraca, contando com a participação de 14 discentes. Nesse sentido, partimos da premissa de que a identidade docente é um construto polissêmico, dinâmico e inerentemente político, forjado na dialética entre a temporalidade do sujeito e as políticas educacionais contemporâneas, como a Resolução CNE/CP nº 4/2024 (Brasil, 2024). O objetivo central consistiu em desvelar como as narrativas reflexivas operam a transição crítica entre o vivido e o projetado, identificando estratégias de ressignificação das trajetórias formativas. Teoricamente, a pesquisa está fundamentada na hermenêutica ricoeuriana (Ricoeur, 2014) da identidade narrativa (idem e ipse), na arquitetura sociolinguística de Labov (1972), com ênfase na função da coda como lócus de síntese ética e na epistemologia da prática de Schön (2000) e Tardif (2014). Em relação à metodologia, a pesquisa adota uma abordagem qualitativa de caráter narrativo, estruturada em um ciclo triádico investigativo: oficinas formativas, produção de narrativas reflexivas (verbais e multimodais) e aplicação de questionário reflexivo. O corpus foi submetido à Análise Textual Discursiva (ATD) integrada à Gramática do Design Visual (GDV) para a interpretação das produções multimodais. Os resultados revelam que a narrativa transcende a mera cronologia, estabelecendo-se como uma práxis de autoformação, na qual a coda funciona como um “espelho retrovisor” que ilumina o projeto futuro. Emergiram quatro categorias temáticas: Identidade Docente como Vocação, Identidade Docente como Mediação para Transformação, Identidade Docente como Superação Pessoal e Identidade Docente como um Processo, evidenciando que o ato de narrar pode constituir o eu-docente ao converter experiências tácitas em saberes profissionais. Diante disso, concluímos que a inserção de dispositivos narrativos nos currículos de licenciatura é imperativa para fomentar uma docência crítica, ética e reflexiva, capaz de responder às complexidades e desigualdades do cenário educacional brasileiro.