Memórias da Cidade: Narrativas de Infância de Moradores do Pinheiro, um Bairro em Ruínas
Infâncias. Direito à cidade. Memórias. Educação. Bairro Pinheiro.
A presente pesquisa foi desenvolvida na Linha de Pesquisa Educação, Culturas e Currículos do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Alagoas, vinculada ao Grupo de Estudos e Pesquisas em Pedagogias e Culturas Infantis -GEPPECI. Tem como objetivo geral compreender a construção de memória como instrumento político a partir do caso do afundamento do solo causado pelo crime ambiental causado por uma mineradora em um bairro central de Maceió, Alagoas. Parte-se do princípio de que os territórios são marcantes na construção histórica e são parte construtiva das memórias afetivas das pessoas. Propomos a investigação sobre as memórias da infância de pessoas antes moradoras de um bairro que está em vias de deixar de existir, devido à catástrofe ambiental causada pelas ações da mineradora Braskem, sobretudo no bairro Pinheiro, situado em Maceió, capital alagoana. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, pautada na abordagem narrativa, tendo como instrumentos para construção dos dados a realização de entrevistas semiestruturadas. As entrevistas foram realizadas com pessoas adultas que moraram no bairro do Pinheiro, um dos primeiros a ser atingido pelo crime ambiental, tendo questões no contexto de suas memórias de infância. Como fundamentação teórica, são trazidas as contribuições de Marcia Aparecida Gobbi (2018; 2019; 2020), Henri Lefebvre (2016), Márcio Seligmann-Silva (2008), Walter Benjamin (2010; 2013), Ailton Krenak (2019, 2020), dentre outras e outros, como possibilidades de escuta para a reflexão acerca das memórias coletivas e individuais, território e movimentos sociais de luta por moradia. Buscou-se, com isso, refletir sobre a construção cultural e o valor identitário presentes nas histórias vividas durante a infância em bairros que estão sob ruínas. Investigamos sobre as memórias da infância de seus moradores e moradoras se colocam como uma contribuição no sentido de manter viva a história e a cultura dos modos de viver e morar em um bairro da cidade de Maceió. As análises desenvolvidas evidenciaram a importância das brincadeiras de rua e dos lugares de afeto na infância desses moradores, assim como expressaram nostalgia, saudade e a sensação de perda de referências após a sua remoção. Constatou-se também que as práticas de socialização desses moradores, quando crianças, ocorriam entre primos e vizinhos e as relações familiares demonstravam relações pautadas na afetividade. A conclusão deste estudo reforça a importância de preservar e documentar as memórias de infância dos antigos moradores afetados pela tragédia. Diante das transformações impostas pelo crime, as narrativas coletadas revelam não apenas a resiliência dos indivíduos, mas também a dimensão coletiva dessas memórias, que contribuem para manter viva a identidade e a cultura de uma comunidade afetada. A pesquisa destaca como a memória atua como um espaço de resistência e um recurso essencial para a compreensão e valorização dos vínculos entre as pessoas e seus territórios.