O compartilhamento do cuidado e educação infantil com as famílias: um estudo de caso envolvendo um grupo de crianças de três anos
Educação infantil; relação instituição-família; família; responsabilidade compartilhada.
O direito à educação em creches e pré-escola desde o nascimento, assegurado pela Constituição Federal de 1988, não apenas legitima a educação e o cuidado das crianças para além do âmbito familiar, mas também estabelece responsabilidade compartilhada sobre a criança entre família e sociedade (Haddad, 2006). Diante dessa compreensão, esta tese de doutorado tem por objetivo compreender como ocorre a relação instituição de educação infantil e famílias no compartilhamento da educação e cuidado de um grupo de crianças de 2 anos que frequentam um Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI) em período integral na cidade de Maceió, Alagoas. Esse objetivo ainda se desdobra em cinco objetivos específicos: I) identificar e analisar por meio de uma revisão sistemática de literatura os estudos empíricos que abordam a relação instituições de educação infantil e famílias; II) identificar o lugar que as famílias ocupam nos documentos que orientam o trabalho pedagógico do CMEI; III) identificar e analisar as formas de interação entre os profissionais do CMEI e as famílias das crianças da turma investigada; IV) compreender as percepções e expectativas das profissionais do CMEI sobre a participação das famílias e as relações com elas empreendidas; e V) compreender as percepções e expectativas das famílias acerca de sua participação na unidade educativa e as relações com ela empreendida. A pesquisa se apoia na teoria bioecológica do desenvolvimento humano de Urie Bronfenbrenner (1996, 2011), e estudos que tratam da temática relação entre instituições de educação infantil e famílias, como: Haddad (2016), Vitória (1999, 2017), Maistro (1999), Cruz (2001), Maranhão e Sarti (2007), Silva (2012, 2014) e Monção (2015). A pesquisa foi realizada em um Centro Municipal de Educação Infantil, situado na cidade de Maceió/AL, mais especificamente, em agrupamento de crianças de 2 anos, com frequência em tempo integral. Participaram da pesquisa seis profissionais do CMEI, sendo elas: duas professoras do grupo de crianças, duas auxiliares de sala, a diretora e a diretora adjunta; e nove familiares das crianças do grupo investigado. Como questionamento, buscou-se responder: como ocorre a relação instituição de educação infantil e famílias ao compartilharem a educação e o cuidado de um grupo de crianças de 2 anos que frequentam o CMEI em período integral? Em termos metodológicos, a pesquisa orienta-se pelos princípios da abordagem qualitativa (Bogdan; Biklen, 1994), e caracteriza-se como um estudo de caso (Yin, 2015; Becker, 1993), que consiste em uma investigação que busca desvelar um fenômeno em sua profundidade e em seu contexto de mundo real (Yin, 2015), a partir do uso de múltiplas fontes de informação. As fontes de dados utilizadas nesta pesquisa, foram: observação participante, entrevista semiestruturada (com a equipe gestora do CMEI e nove membros familiares das crianças), grupo focal (com cinco profissionais do CMEI) e análise documental (do Projeto Político Pedagógico do CMEI e o seu livro de ocorrências). A análise dos dados apoiou-se na análise por triangulação de métodos (Minayo, 2005; Gomes et al., 2005; Gomes (2007). Os achados da pesquisa mostram que a relação entre o CMEI e as famílias se manifesta em diversas dimensões institucionais, muitas vezes acompanhadas por tensionamentos. Nove dimensões mereceram atenção nesse estudo: as regras institucionais, o período de inserção da criança no CMEI, os momentos de acolhida e despedida, as comunicações estabelecidas, o uso do transporte escolar pelas crianças, as ações organizadas pelo CMEI para receber as famílias, as práticas de âmbito intersetorial, a interrupção das atividades do CMEI, e a jornada das crianças na instituição em tempo integral. Apoiando-me na teoria bioecológica de Bronfenbrenner (1996, 2011), identificou-se que alguns dos tensionamentos se encontram no domínio do mesossistema como a fragilidade da comunicação e os tipos de ações propostas às famílias. As raízes de outras tensões vão além dos muros do CMEI e encontram-se no exossistema, seja no âmbito das políticas locais, como ausência de diretrizes de saúde, transporte escolar, ou das políticas nacionais, como a oferta em período integral e a jornada de trabalho dos professores. Outras tensões ainda refletem forças oriundas do macrossistema como visões de educação e cuidado infantil, de criança e de família que impactam a relação entre a instituição e as famílias. Destaca-se ainda como ponto alto desta pesquisa, o desenvolvimento do grupo focal, que teve um efeito formativo, visto que concepções e perspectivas das profissionais do CMEI sobre as famílias e a relação estabelecidas com elas, foram revisitadas ao longo da discussão do grupo, trazendo reflexões, reconsiderações, novos posicionamentos e indicações de mudanças de práticas.