Ao encontro do sagrado irreligioso nos romances detetivescos nacionais de autoria feminina: proximidades e distanciamentos entre as obras Mulheres Empilhadas (2019), No fio da noite (2001) e Os seios de pandora (1998)
literatura detetivesca; autoria feminina; personagem-detetive; sagrado irreligioso; literatura comparada; subjetividade.
Esta dissertação investiga a presença e a função do sagrado irreligioso como elemento estético na literatura detetivesca brasileira de autoria feminina, tomando como corpus os romances Mulheres Empilhadas (2019), de Patrícia Melo, No fio da noite (2001), de Ana Teresa Jardim, e Os seios de Pandora: uma aventura de Dora Diamante (1998), de Sonia Coutinho. A pesquisa parte da compreensão de que a tradição detetivesca ocidental se constituiu historicamente sob forte influência de uma racionalidade cientificista, associada à valorização da objetividade, da investigação lógica e da resolução do crime, elementos que contribuíram para a configuração de um modelo narrativo centrado na tríade crime–investigação–solução. Nesse percurso, a inserção de personagens femininas na posição de detetive e, posteriormente, a incorporação de suas subjetividades produzem deslocamentos importantes nesse modelo. A dissertação propõe, nesse sentido, compreender a autoria feminina não apenas como marca de identidade autoral, mas como posição discursiva capaz de tensionar formas tradicionais de representação da investigação, da verdade, do corpo, do espaço e das experiências. Nesse contexto, delimitamos o sagrado irreligioso como categoria de análise, compreendendo-o como uma experiência do sagrado desvinculada da institucionalização religiosa e relacionada às formas pelas quais as personagens vivenciam o mistério, o transcendente, o simbólico e aquilo que excede a racionalidade objetiva. A categoria é construída em diálogo com os estudos de Rudolf Otto, Mircea Eliade, Leila Amaral, Maria Amélia Bulhões e outros estudos sobre o sagrado, estabelecendo-se também uma distinção em relação à categoria do místico-religioso, conforme empregada por Fernanda Massi na análise da ficção policial. Mais do que identificar o elemento estético sagrado irreligioso nas narrativas, interessa compreender de que maneira essas experiências participam da constituição das personagens e interferem nos modos de investigação e de (auto)descoberta. A partir de uma abordagem qualitativa, interpretativa e comparatista, a dissertação examina as diferentes formas de articulação entre investigação criminal, subjetividade, espaço, identidade e experiência do sagrado nos três romances. O percurso analítico considera a formação histórica da literatura detetivesca, a transformação da personagem-detetive feminina e as reconfigurações promovidas pela autoria feminina, articulando essas discussões a uma perspectiva crítica decolonial. Posteriormente, são analisadas as particularidades de cada obra e, em perspectiva comparada, as proximidades e os distanciamentos entre suas personagens femininas e suas experiências com o sagrado irreligioso. Sustentamos, assim, que, nos romances analisados, o sagrado não constitui apenas um elemento temático ou ornamental da narrativa: ele atua como instância de deslocamento da racionalidade investigativa e como mediação para processos de descoberta que ultrapassam a resolução objetiva do crime, alcançando dimensões de autodescoberta, identidade, espacialidade e experiência subjetiva. Desse modo, a pesquisa evidencia como a literatura detetivesca de autoria feminina contemporânea tensiona convenções do gênero ao articular investigação e subjetividade e ao deslocar o mistério de algo a ser simplesmente solucionado para uma experiência capaz de produzir outras formas de conhecimento sobre as personagens e os espaços que habitam.