Desenvolvimento de novo método de diagnóstico para a leishmaniose visceral humana e veterinária a partir de tecnologia acustofluídica.
Leishmaniose visceral. Acustofluídica. Própolis. Glioblastoma. Ferroptose.
A leishmaniose visceral (LV) é uma doença negligenciada e endêmica no Brasil, com alta letalidade, cujo diagnóstico e tratamento enfrentam desafios significativos. Paralelamente, o glioblastoma (GBM), o tumor primário do sistema nervoso central mais frequente e agressivo, apresenta resistência à temozolomida (TMZ) e possui prognóstico desfavorável, com necessidade de novas abordagens terapêuticas. O objetivo deste trabalho foi padronizar um método de diagnóstico para LV utilizando tecnologia acustofluídica e, em paralelo, avaliar a atividade antitumoral de extratos e frações de própolis. Para a padronização do dispositivo, células e Leishmania infantum foram utilizadas para obtenção de antígenos com a finalidade de detectar anticorpos em amostras biológicas de pacientes com LV. Para isso, além da reação de aglutinação esperada, faz-se necessário verificar a eficiência do teste e possíveis reações cruzadas. Com uma revisão narrativa da literatura, buscou-se verificar a ferroptose como um mecanismo de morte celular e modulação da resposta imune. Uma revisão de escopo sobre o uso da própolis no GBM visa verificar a ação antitumoral. Ensaios in vitro foram realizados para avaliar a ação antitumoral, citotoxicidade e seletividade do extrato etanólico (ExEt) e frações (FrHex; FrAcOEt e FrMeOH:H₂O) da própolis marrom A3 de Petrolina em linhagens de GBM (GBM02, U251, A172) e em células mononucleares do sangue periférico. Na padronização do dispositivo de diagnóstico, algumas limitações técnicas impossibilitaram alcançar o objetivo, como perfil semelhante de aglutinação em amostras positivas e negativas para leishmaniose tegumentar em estudos prévios, além da ausência de amostras de pacientes com diagnóstico confirmado para LV inviabilizou a padronização. Já os objetivos relacionados à própolis foram alcançados. A revisão de escopo sintetizou evidências de oito estudos, demonstrando que extratos de própolis, ricos em flavonoides (como crisina e galangina) e ácidos fenólicos, reduzem a viabilidade celular, induzem apoptose, bloqueiam o ciclo celular e inibem a migração de células de GBM. A revisão narrativa sobre ferroptose, pioneira no contexto da leishmaniose, mostrou o papel desse processo: enquanto os macrófagos utilizam para eliminar o parasito, o parasito manipula o metabolismo do ferro e as vias antioxidantes do hospedeiro para sua sobrevivência, sugerindo um novo alvo para terapias. Nos ensaios de MTT com as linhagens de GBM, o ExEt e as frações FrHex e FrAcOEt apresentaram ação antitumoral tempo-dependente nas três linhagens de GBM, com eficácia máxima (Emáx) superior a 80% em 72h, superando a TMZ, que apresentou baixa eficácia. Neste ensaio, a FrMeOH:H2O não apresentou boa atividade. Embora todas as substâncias tenham apresentado toxicidade para células mononucleares, o índice de seletividade (IS) foi superior a 1 em todas as linhagens, com destaque para o ExEt na linhagem GBM02 (IS>3,71), indicando uma janela terapêutica favorável com maior citotoxicidade para as células tumorais. Em conclusão, não foi possível padronizar o dispositivo para o diagnóstico da LV devido a limitações técnicas e metodológicas. Já os ensaios in vitro demonstraram a própolis testada constitui uma alternativa promissora como terapia adjuvante para o GBM, atuando por múltiplos mecanismos antiproliferativos e com seletividade celular. Os achados abrem perspectivas para o reposicionamento de fármacos e desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas no campo da oncologia, sendo necessários estudos adicionais para elucidar os mecanismos de morte celular envolvidos.