A BORDA TAMBÉM É O BURACO: O SOFRIMENTO COLETIVO NA COMUNIDADE DOS FLEXAIS, EM MACEIÓ/AL.
Injustiça Socioambiental; Caso Braskem; Área de Borda; Sofrimento Coletivo
Em 2020, foi elaborada a primeira versão do Mapa de Setorização de Danos e Linhas de Ações Prioritárias, instrumento fundamental para subsidiar a gestão dos riscos decorrentes das repercussões socioambientais da mineração de sal-gema em Maceió, Alagoas. Entretanto, suas atualizações não acompanharam, de forma fidedigna, a evolução da subsidência nem a complexidade de seus impactos, contribuindo para o subdimensionamento das áreas criticamente atingidas. Os limites oficialmente estabelecidos produziram um fenômeno territorial complexo: as chamadas "áreas de borda", regiões intensamente afetadas, mas não reconhecidas como diretamente atingidas e, consequentemente, excluídas das ações prioritárias de realocação. Entre elas encontram-se os Flexais, território em que se desenvolve esta pesquisa. Em um contexto de injustiça socioambiental, a comunidade dos Flexais convive com sinais historicamente negligenciados de subsidência do solo e com os efeitos do denominado ilhamento socioeconômico, expressão utilizada pela própria gestão institucional para designar a situação instaurada após a realocação das populações do entorno. Esse processo configurou um território marcado pelo isolamento, pela precarização das condições de vida e pela intensificação do sofrimento coletivo. Em resposta a esse cenário, foi proposto o Projeto Flexais, cuja formulação e desenvolvimento ocorreram à revelia de grande parte da população local. Esta pesquisa surge da necessidade de compreender os processos de produção do sofrimento coletivo na comunidade dos Flexais, considerando sua permanência em uma área de borda. Para apreender a complexidade do campo empírico, o percurso investigativo articulou contribuições da Psicologia Social Crítica, da Psicologia Ambiental Crítica e das perspectivas decoloniais e anticoloniais. Trata-se de uma pesquisa de campo, qualitativa, comprometida com a construção de leituras plurais sobre a relação entre território, subjetividade e sofrimento social. Do ponto de vista metodológico, a investigação situa-se na intersecção entre o materialismo histórico e as críticas decoloniais e anticoloniais, compreendendo a colonialidade como constitutiva da totalidade histórica capitalista. Assumiu-se como eixo analítico a noção de relação pessoa-ambiente, desenvolvida no âmbito da Psicologia Ambiental, por sua potência para compreender os processos subjetivos e territoriais implicados na experiência comunitária. A pesquisa orientou-se por uma abordagem colaborativa, participativa e não extrativista, mobilizando a pesquisa participante e utilizando diários de campo, análise documental e análise temática como estratégias de registro, sistematização e análise. O texto da dissertação foi estruturado em uma apresentação, uma introdução organizada em subtópicos, três artigos de discussão e as considerações finais.