EUTISMOS: O AUTISMO VIVIDO POR PESSOAS DIAGNOSTICADAS TARDIAMENTE
autismo; masking; diagnóstico tardio; design; afeto.
O autismo é normalmente visto como uma condição infantil, de
forma que o atendimento de clínicas, associações e
organizações filantrópicas e até as políticas educacionais se
concentram, principalmente, na infância. Entretanto, há uma
lacuna sobre a experiência das pessoas autistas que não foram
acompanhadas na infância, tendo passado “despercebidas” até
a fase adulta e desenvolvendo habilidades específicas para “se
encaixar” em contextos de socialização: o masking. Esta
pesquisa procura, a partir do design, do afeto e de lentes
autistas, corporificadas e interseccionais, entender o autismo
por pessoas autistas diagnosticadas tardiamente. Para isso,
investiga-se não apenas o universo do autismo – o ativismo
político, ativismo de pais e profissionais de saúde, os quais
foram investigados em três eventos distintos – mas também
avalia-se as trajetórias de sete pessoas adultas diagnosticadas
ou com suspeita de autismo, suas máscaras e estratégias para
navegar situações sociais complexas antes e depois do
diagnóstico. A partir de reflexões metodológicas, nas quais o
afeto se torna cerne da pesquisa e o design se apresenta como
seu potencializador, nota-se que o autismo não deve ser
encarado como uma condição meramente cerebral, mas uma
condição corporificada e, principalmente, que influencia e é
influenciada pelo contexto social no qual tal corpo se encontra.
A partir de uma seção etnográfica, buscou-se entender o
masking como algo social e politicamente situado, expondo um
autismo trans e uma transgeneridade autista. Também foi
possível perceber a associação de autismo a prejuízos e
déficits, de modo que o autismo só era crível a partir da crise,
da dificuldade e da autoagressão. Desse modo, é possível
considerar que há muito em disputa no autismo – desde quem
acessa o diagnóstico a quem tem acesso a terapias,
tratamentos e mais voz em lutas políticas.