PREVALÊNCIA DE HORMONIOTERAPIA NÃO ASSISTIDA E MODIFICAÇÕES CORPORAIS NO PROCESSO TRANSEXUALIZADOR DE PACIENTES ATENDIDOS NO AMBULATÓRIO TRANS DE UMA CLÍNICA DA FAMÍLIA EM MACEIÓ, ALAGOAS.
Transexualidade; Hormônios Sexuais; Automedicação; Sistema Único de Saúde.
A hormonioterapia constitui demanda central no processo de afirmação de gênero de pessoas trans, estando associada à melhora de desfechos psicossociais e qualidade de vida. Contudo, barreiras estruturais no acesso aos serviços de saúde favorecem a prática da hormonioterapia não assistida, expondo essa população a riscos clínicos relevantes. O presente estudo teve como objetivo analisar a prevalência da automedicação hormonal e das modificações corporais em pessoas trans atendidas em um Ambulatório Trans de uma Clínica da Família em Maceió, Alagoas, bem como identificar fatores sociodemográficos associados. Trata-se de estudo transversarealizado entre setembro de 2025 e janeiro de 2026, com amostra de 104 participantes. A prevalência de hormonioterapia não assistida foi de 33,7%. Observou-se associação estatisticamente significativa entre automedicação e faixa etária (p = 0,011), além de associação entre menor tempo de hormonização e maior frequência de uso não assistido (p = 0,027), indicando maior vulnerabilidade nos estágios iniciais da transição. A principal forma de obtenção dos medicamentos foi a compra em farmácias sem prescrição (77,1%). Entre os participantes que realizaram automedicação, 34,3% relataram eventos adversos, sendo que a maioria não buscou atendimento médico após sua ocorrência. Quanto às modificações corporais, 12% dos participantes relataram realização de procedimentos além da hormonioterapia, incluindo cirurgias e uso de silicone industrial. Os achados indicam que a automedicação hormonal não se configura como escolha individual isolada, mas como prática associada a contextos de vulnerabilidade e dificuldades de acesso ao cuidado formal. A maior frequência do uso não assistido no início da transição evidencia período crítico que demanda intervenções precoces, educativas e estruturais para redução de riscos e fortalecimento do acompanhamento ambulatorial.