POR MAIS VOZES: A PRESENÇA DE DOCENTES NEGRAS NO CAMPUS ARAPIRACA NA
UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
mulheres negras; docência universitária; desigualdade racial; interseccionalidade; racismo estrutural.
A docência no ensino superior brasileiro insere-se em um contexto de desigualdades
estruturais, historicamente atravessado por racismo, colonialismo e capitalismo. Sob uma
perspectiva interseccional de gênero e raça, observa-se que mulheres negras permanecem
sub-representadas e enfrentam múltiplas opressões que afetam negativamente sua
permanência, saúde mental e bem-estar. Este estudo analisa a presença, o perfil e as condições
de atuação das mulheres docentes do Campus Arapiraca da Universidade Federal de Alagoas
(UFAL), com o objetivo de compreender como gênero e raça articulam-se na inserção
acadêmica e nas vivências institucionais. A pesquisa adota uma abordagem mista
(quanti-qualitativa), de natureza exploratória, descritiva e analítica. A metodologia combinou
levantamento de dados bibliográficos e análise documental de legislações e documentos
institucionais da UFAL. A coleta de dados primários foi realizada por meio de questionário
eletrônico (Google Forms), aplicado a uma amostra de 108 mulheres docentes do Campus
Arapiraca, no período de setembro a dezembro de 2025. Complementarmente, foram
analisados dados secundários do site oficial da UFAL e dos currículos registrados na
plataforma Lattes do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNPq). O referencial teórico fundamenta-se nos conceitos de interseccionalidade
(Crenshaw), epistemicídio (Carneiro) e pacto da branquitude (Bento). Os resultados
evidenciam assimetrias raciais significativas na carreira docente. Enquanto as docentes
brancas compõem a maior parcela do corpo docente e apresentam distribuição heterogênea
entre os níveis de titulação, as docentes pretas, embora numericamente minoritárias,
concentram-se integralmente nos níveis mais elevados de formação acadêmica, evidenciando
trajetórias marcadas por maior exigência de qualificação para acesso e permanência na
carreira. Identificou-se associação estatística entre raça e estagnação funcional, indicando que
mulheres negras enfrentam maior lentidão nos processos de progressão na carreira. Ademais,
a sobrecarga institucional, associada à divisão sexual e racial do trabalho, compromete a
produtividade acadêmica dessas docentes. Os dados indicam a percepção de um ambiente
universitário predominantemente hostil, considerando que a maioria das participantes relatou
ter vivenciado ou presenciado situações de assédio. Conclui-se que as políticas institucionais
voltadas à equidade de gênero e raça são percebidas como insuficientes para enfrentar as
desigualdades identificadas, o que fundamenta a proposição de um Produto
Técnico-Tecnológico (PTT) direcionado ao letramento racial institucionalizado e à criação de
redes de apoio às docentes negras. A análise desenvolvida subsidia a formulação de ações
institucionais orientadas à promoção da equidade racial e de gênero, contribuindo para o
aprofundamento do debate sobre inclusão, reconhecimento e valorização das mulheres negras
no espaço acadêmico.