Subjetividades larvares: Deleuze leitor de Hume
Deleuze. Hume. Empirismo. Subjetividade. Imanência.
Nosso trabalho busca compreender as condições de constituição da subjetividade filosófica a partir da criação conceitual, tomando como eixos interpretativos o pensamento de Gilles Deleuze e a filosofia empirista de David Hume. A partir disso, em Deleuze, nossa análise toma como tese central a subjetividade não como um dado estável ou uma substância interior estática, mas um efeito intensivo e movente que emerge em meio a processos pré-subjetivos e impessoais. A subjetividade, nesse sentido, parece-nos resultar de forças de diferenciação que se atualizam na atividade conceitual, sendo mais um processo do que uma estrutura determinada. Disso, nossa dissertação segue um percurso argumentativo que, em um primeiro momento, analisa o fluxo da imanência, partindo dos átomos da experiência de Hume (impressões e ideias) para chegar a um campo pré-individual em que ocorre o que, para o pensamento deleuziano, podemos chamar de gênese sem sujeito. Em um segundo momento, nosso trabalho aborda o advento da natureza humana, isto é, investigamos como a subjetividade adquire consistência através da relação com a exterioridade, por meio de mecanismos como hábito, crença e ficção do eu. Nessa perspectiva, ponderamos uma transvaloração conceitual, ressignificando a fragilidade da identidade, exposta por Hume, como uma precariedade ontológica frutífera; apontamos que a ausência de um eu fundador, longe de ser um problema intratável, é a condição de possibilidade para os processos de subjetivação. Assim, o detalhamento de tal condição de possibilidade foi tratado por nós como aquilo que, seguindo o pensamento deleuziano, chamamos de subjetividade larvar (o
estado de devir em sua maior intensidade, que não passa senão de um processo aberto, descontínuo e imanente). Em síntese, expusemos que a subjetividade em um sentido deleuziano se dá no cruzamento entre a crença e a invenção e em uma lógica intensiva de produção, que pode nos oferecer uma renovação crítica a partir da noção de subjetividade como um algo múltiplo, um devir-larvar que extrai da precariedade novas formas de vida.