PROPRIEDADE, AMOUR-PROPRE E O FALSO CONTRATO: MECANISMOS DE DESIGUALDADE E VIOLÊNCIA EM ROUSSEAU
Jean-Jacques Rousseau. Violência. Desigualdade. Amour-propre. Propriedade Privada. Falso Contrato.
A presente dissertação investiga a gênese, a natureza e os mecanismos da violência na filosofia de Jean-Jacques Rousseau, contrapondo-se às tradições teóricas que a naturalizam como um instinto inerente à condição humana. O objetivo central é demonstrar que, para o genebrino, a agressividade e a opressão sistêmica constituem um produto histórico e social, fundamentado em uma tríade de degeneração: psicológica, material e institucional. Metodologicamente, a pesquisa reconstrói o percurso antropológico rousseauniano a partir do estado de natureza, cenário de paz pautado pelo equilíbrio entre o amor de si (amour de soi) e a piedade (pitié). O estudo analisa como a perfectibilidade, faculdade humana ambivalente, aliada a contingências externas, permitiu o despertar do amor-próprio (amour-propre), inaugurando a violência em sua dimensão psicológica através da comparação, da vaidade e do desejo de dominação. Em seguida, examina-se a materialização do conflito com o advento da propriedade privada, impulsionada pela agricultura e pela metalurgia, que converteu a usurpação em fato social e instaurou um estado de guerra pautado na dependência mútua. Por fim, a pesquisa escrutina o "falso contrato" — o pacto social histórico — como um engodo retórico e ideológico formulado pelos ricos para salvaguardar suas posses. Conclui-se que o Estado resultante desse pacto não elimina a violência, mas a monopoliza, metamorfoseando a força física e difusa em violência institucional, invisível e legalizada. Para Rousseau, a forma mais brutal de violência não se resume ao dano físico, mas consubstancia-se na própria desigualdade legitimada.