O EFEITO DA PANDEMIA DE COVID-19 SOBRE AS TAXAS DE SUICÍDIO NO BRASIL: evidências a partir de uma análise de séries temporais interrompidas
COVID-19; Suicídio; Séries Temporais Interrompidas; Saúde mental
A pandemia de COVID-19 produziu impactos expressivos sobre a saúde mental em escala global, sendo uma preocupação central na literatura o seu potencial efeito sobre as taxas de suicídio. O Brasil, um dos países mais severamente afetados pela crise sanitária, ainda carece de evidências conclusivas acerca das consequências da pandemia sobre as mortes autoprovocadas. Este estudo tem como objetivo estimar o impacto da pandemia de COVID-19 nas taxas de suicídio no Brasil. Foi empregado um desenho de séries temporais interrompidas, com abordagem quase-experimental, incorporando ajustes para sazonalidade a fim de aprimorar a precisão das estimativas. A análise baseou-se em óbitos decorrentes de todas as formas de lesões autoprovocadas, conforme a Classificação Internacional de Doenças, utilizando-se a taxa de suicídio por 100.000 habitantes como medida de desfecho. O período analisado abrange os anos de 2013 a 2023. As estimativas foram realizadas para a população brasileira total, com estratificação por sexo e por regiões administrativas. Observou-se um aumento gradual e estatisticamente significativo das taxas de suicídio no período pré-pandêmico (β₁ = 0,00148; p < 0,001). No nível nacional, não foi identificada uma mudança estatisticamente significativa na tendência após o início da pandemia (β₃ = 0,00092; p > 0,05). Entre os homens, tanto a tendência pré-pandêmica (β₁ = 0,00236; p < 0,001) quanto o incremento no período pós-pandemia (β₃ = 0,00155; p < 0,05) mostraram-se estatisticamente significativos. Entre as mulheres, a tendência pré-pandêmica foi modesta (β₁ = 0,00065; p < 0,001), sem alteração significativa no período pós-pandêmico (β₃ = 0,00033; p = 0,10). Na análise regional, verificaram-se aumentos estatisticamente significativos no período pós-pandemia nas regiões Centro-Oeste (β₃ = 0,00217; p < 0,01) e Norte (β₃ = 0,00186; p < 0,05), enquanto as regiões Sudeste e Sul não apresentaram mudanças significativas. O controle de sazonalidade revelou reduções consistentes nas taxas de suicídio em meses intermediários do ano, independentemente do período pandêmico. Os resultados indicam que a pandemia de COVID-19 não promoveu uma inflexão estatisticamente significativa na tendência nacional das taxas de suicídio, mas coincidiu com a persistência e intensificação de padrões preexistentes em grupos demográficos e regiões específicas. Esses achados reforçam a necessidade de estratégias de prevenção ao suicídio sensíveis às desigualdades regionais e demográficas no contexto brasileiro.