Variação espacial das assembleias de peixes recifais ao longo do gradiente de profundidade no Atlântico Sudoeste Tropical, Brasil.
Conservação, conectividade, recifes tropicais
No Atlântico Sudoeste Tropical, os ecossistemas recifais constituem áreas de elevada biodiversidade, embora muitos ocorram sob condições ambientais subótimas em relação aos recifes tropicais clássicos. As suas assembleias de peixes respondem às pressões naturais e antrópicas que atuam sobre esses ecossistemas, sendo a profundidade um importante fator associado à sua estruturação das comunidades. Hipotetizamos que pequenas variações verticais, mesmo em profundidades inferiores ao limite da zona mesofótica, sejam suficientes para promover mudanças na biomassa, composição e estrutura trófica das assembleias. As coletas foram realizadas entre novembro de 2025 e março de 2026 por meio de 150 censos visuais subaquáticos distribuídos em 10 sítios ao longo de um gradiente de profundidade. Foram registradas 83 espécies pertencentes a 35 famílias, totalizando 14.671 indivíduos (98 ind./40 m²) e biomassa de 1.555.190 g (10.368 g/40 m²). Os recifes profundos concentraram a maior biomassa (69%) e abundância (56%) registradas. A diversidade não apresentou relação significativa com a profundidade, embora alguns sítios tenham diferido entre si. Em contraste, a biomassa variou significativamente ao longo do gradiente, acompanhada por uma reorganização da composição taxonômica e da estrutura trófica das assembleias. Espécies e grupos tróficos apresentaram padrões distintos de distribuição, com evidências de segregação ontogenética para parte das espécies, enquanto outras espécies ocorreram em ampla faixa vertical ou apresentaram associação preferencial aos recifes mais profundos, onde também se concentraram maior biomassa e espécies de macrocarnívoros, assim como indivíduos de maior porte. Nossos resultados demonstram que pequenas variações de profundidade são suficientes para reorganizar as assembleias de peixes recifais antes da transição para ecossistemas mesofóticos. Assim como reforçam a importância da conservação de todo o gradiente, pois, embora os recifes apresentem composição distinta, a distribuição ontogenética pode indicar que diferentes faixas de profundidade desempenham funções complementares ao longo do ciclo de vida de diversas espécies, ressaltando a necessidade de abordagens integradas de manejo.